segunda-feira, 5 de março de 2012

Ruína 

Sem encontrar-se.
Viajante pelo seu próprio torso branco.
Assim ia o ar.

Logo se viu que a lua
era uma caveira de cavalo
e o ar uma maçã escura.

Detrás da janela,
com látegos e luzes se sentia
a luta da areia contra a água.

Eu vi chegarem as ervas
e lhes lancei um cordeiro que balia
sob seus dentezinhos e lancetas.

Voava dentro de uma gota
a casca de pluma e celulóide
da primeira pomba.

As nuvens, em manada,
ficaram adormecidas contemplando
o duelo das rochas contra a aurora.

Vêm as ervas, filho;
já soam suas espadas de saliva
pelo céu vazio.

Minha mão, amor. As ervas!
Pelos cristais partidos da morada
o sangue desatou suas cabeleiras.

Tu somente e eu ficamos;
prepara teu esqueleto para o ar.
Eu só e tu ficamos.

Prepara teu esqueleto;
é preciso ir buscar depressa, amor, depressa,
nosso perfil sem sonho.

Federico García Lorca, in 'Poeta em Nova Iorque'
Ao vivo

Ameaçados os toques
Tocar o mundo
Voraz o vidro dos olhos
Sem um fundo
Beijar, a vida que se apresenta como nova
Tendo a doce paciência de espera
De saber lidar
Num silêncio quase mudo
Lamber, com os ouvidos
O dialeto do mundo
Resumindo tudo ao leve expressar
Da necessidade surda
E de todos tão sofrida
Sem consciência
Como um sonho lúcido
E partir da mesma repetida
Sombra que agora é dia
E partir desse mesmo dia
Para o que se chama vida
Ou dizem ser vida
Sem sentido e sentida
Amarga e amiga
E porta de saída
Para entrada
Nascida a primeira morte
Estéril agora que se desconhece
Trança os fins de fôlego no susto
Ditado da rotina
Herança da vida é a morte
E de rainha que se faz viuva
A moda antiga
Sem culpa, sem ressentimento
E sem consideração
Que se dê ao mortal a sua sina
Essa é a máxima mais prescrita
Nos bens rabiscados manuscritos desta vida
Dos que sabem, hora alívio, hora agonia,
Hora insônia, hora alegria
Hora por hora sempre chega a decisiva
E fim

Wallmushu
Aboé Shigú

A vida me deu um gato
O dia com horas contadas, caídas
Nas areias brancas da minha ampulheta
Do mundo ganhei uma alma
Inocente da água e do raio
Da luz dos cometas e das constelações

Outras lágrimas caídas
Com tuas palavras
Me deram outras sete vidas
A vida me deu um gato
Minha alma de algum dia
Através das noites de uma semana
Através das cordas da minha guitarra
Através do meu grito e do meu silêncio

A vida me deu um susto, e depois um gato
E eu como estátua com os olhos arregalados
A Vitória-Régia louvando a lua
E o sol secando o suor dos engraxates
A vida me deu um gato no meio de um eclipse
Não era noite nem dia no meu estado
Entre todos comungada uma alegria
Um presente gato

A vida me deu um gato
E as relíquias desenterradas
A vida me deu um nirvana
E duas árvores gêmeas
Onde fui me deitar


WallMushu

domingo, 4 de março de 2012

Alcére

Amor do mundo
Sorrindo em palavras de Alfa e Ômega
Tão comum como o dia
Minha vida prevista em profecias de cinzas
A minha pobre vida 
Nossas pobres vidas
Gastas dia a dia com o que não queremos
Nosso futuro em banho-maria
Tão comum como dia
A felicidade em pérolas e água benta


Ao meu batismo
A todos que são um sonho
Ao muro das lamentações
Aos fantasmas dos natais passados
Àqueles que estão nascendo 
Para ver o mundo, amaciados em algodão
Aos olhos dos gatos, aos gatos do Egito
Ais grandes reis pobres
Aos dentes de leão
Ao reflexo dos diamantes
Aos gargalos da produção


Vede-me suspenso em mantras
Imerso em mim, na metade da lua cheia
Eis que desejo, e então torna-se o é
Louvo como forma de adorar
E então emancipo-me aos céus
Entre Principados e Potestades
Adormece leve corpo de terra
E então chegarei em mensagem tímida


Eis que o que escrevo é sonoro e tem forma
Meus olhos beijam aliança e holocausto
Eis que é um milagre imediato
A correr entre as veias como eletricidade
E calor de uma emoção inesperada
É um novo natal dentro da páscoa
Vede-me decorado de sinos
Respirando as quatro estações
Vede-me nas tonturas de um Oásis
Num deserto de sal

Podem-me tirar as forças
Mas eu terei um nome
A gritar a piracema do que eu sou
Inquieta costura dos tecidos antigos
A se rebelar em trombetas
E confissões aos pés de uma escada


Dobro meus joelhos pois amo
Pois jogaram-me as águas da nascente
Pois lavaram meus pés
E pentearam meus cabelos
Deram às minhas barbas
O nome da minha idade
Contaram minhas lagrimas
E me deram uma infância
Plantaram uma árvore em meu nome
E a ela deram o nome de Presente
Me esqueceram por um dia
E então fui ver o mar


WallMushu

Minha singela gratidão a dois amigos de Ribeirão Preto

sexta-feira, 2 de março de 2012

O poeta pede palmas

O poeta pede palmas e luz
Como as flores na janalela 
Pedem para que sejam ouvidas em seu perfume
Tocando o coração

Perfumes de lembranças e sonhos
Que ficaram na estação das crianças
O poeta pede palmas caladas e suspiros
Para o desfecho do mistério de sua escrita

Luz no palco, o poeta derrama lagrimas
Como cántaros na primavera das ruas 
Derramando água no asfalto quente
Pede o poeta para sermos mais gente 

O poeta pede o calor de um sol
O diamante da lua e os aneis de saturno 
Para se adornar de universo e voar por entre as almas
Que quietas esperam desfecho e a revelação
Vez ou outra me virá um susto e uma pequena dor
Mas não serão meus exageros de viver?
Como sempre exageramos o mundo
E as vezes nos achamos tão pouco?

O poeta pede que caia a força
Que caiam os altos céus e apareçam os anjos
O poeta pede a ressurreição
O poeta pede o rosto de Deus
A mais antiga das jóias e o mais santo dos livros
O mais perfeito dos testamentos e o mais raro dos salmos
Deus desejava a Davi
O poeta deseja a Deus, ele deseja a paz

Mas ser poeta não é ser uma guerra?
Uma eterna luta, um duelo nunca decidido
Dois amigos descem pelos vales e andam sem se ver
No entanto eles se falam e sabem a cor de sua própria voz
O poeta pede os dialetos mortos para abrir o mar dos corações
Para que passem as romarias de suas cantigas
De suas histórias e de suas emoções
O poeta deseja ver lágrimas nos seus olhos

O poeta também deseja causar a sua dor
Sem algo que seja ruim
O poeta te deseja homem e mulher, na humanidade dormida
O poeta deseja o seu sentido de ser, para que então sejas sem o medo do sonho
Sem que a realidade engula uma voz de grito 
Sem que haja um perdão para tudo isso

O poeta deseja o desfecho
Por favor, sejam quietos e honestos neste momentos
Que se relevem ousadas as verdades históricas de todos nós
Que todos então sejamos uma verdade unica de tudo
Que sejamos todos um só amor e uma só pessoa
Eis que os desfecho chega a temperatura de um nascimento

Eis que sois vós
Todos poetas

WallMushu

quinta-feira, 1 de março de 2012

Onde não sei

De onde vem este vento?
A me abrir as portas celestiais
De madeiras de cheiro


Talvez fosseo abraço do meu fim
No desabrochar de um apocalipse
Não sei


Sonhei que haviam salas desertas
Em um prédio velho
Dos meus dramas em sonetos


Hoje senti dores
Entre a hermeneutica e o latim
Caladas ao fim da ceia


Que me haverá no amanhã?
Este medo me corróia a veias
Até os meus menores becos


Tudo o que não sei
Corre no meu sangue
Como feitiçaria nas terras nórdicas


Vidas, passeios, sussurros
No fio fino do meu peito
Ao calar da noite calma


Artistas desenhando as mesas redondas
Acalmando os passos entre os dedos
A embriagar-se do mesmo


A criança calma 
Chorava calma
Enquanto fazia um desenho


Entre as vidas
Sou mais do que alegria
Sou mais do que meu segredos


A vida me pede um trocado
Na esquina onde não tenho
E então passo a dever


WallMushu