segunda-feira, 12 de março de 2012

Radamantes

O dia passou
E já faz mil anos
Já se faz perceber nas pedras
No musgo que cresce
Na palavra que virou passado
No passado que virou história


O dia passou
Por entre meus olhos
Enquanto eu era conversa
Enquanto eu era mentira
O mundo plantava virtudes e vícios
Que a noite floresciam


O dia passou
A noite dormia antes do sol
Caiam os cabelos vermelhos
Como neve da primavera
Ascendiam rezas e promessas
À luz mais alta


O dia passou
Enquanto eu pensava
Enquanto a noite chegava
Antes das sete horas
A madrugada nascia
No berço da tarde clara
Que parecia dia


WallMushu

O presente

Este é o meu presente
Do Natal onde não vos conhecia
Onde meus olhos brilhavam tal como velas
Na vigília do segundo dia
Eis que sou a ressurreição
Que se resguarda para o fim dos juizos


Eis que sou o agora
De onde nada sai, onde tudo fica
Eis que sou lâmina e beijo
Com hectáres de terra e sândalo
Eis retrato e desenho
Do mundo figurativo


Este é o meu presente
Que retirei aos poucos dos anos
Entre esmeraldas e turmalinas
Este é o meu presente
Que dou a vocês
Tal como nasce a lua entre as estrelas
Muralha de mil chagas e mil santidades


Este é o meu presente, argila e uma estátua
Athenas na Grécia antiga
O amor em todas as línguas
O Deus em todos os credos
O universo nas cordas dos violinos
O silêncio de todas as verdades
O eu que todos somos


Eis que vos abrirei, com meus braços
O mar em três pedaços
Onde estarão os brincos de princesa
Antulhos e copos de leite
Haverá provas de todas as sereias
O sal de todas as maresias
O sol de todos os meio-dias


Este é o meu presente
Dramas e comédias como as antigas modas
Depois da meia noite
Tendo o fogo como próprio anjo
A coragem como vida
E uma rosa como marcha


Vede-me irmã, que estou na tua frente
Que agora eu sou presente
Que agora eu sou real
Tereis dores como todos têm
Mas não será nada de mal


Este é o meu presente minha querida
Eu jurei ser feliz
Por mim e por você nesta vida


WallMushu

A vida segundo os novos profetas

A morte clássica se tornou molde casual
Em manequim de fome e desejo cego
Desrespeitar-se passou a ser coragem
E perder tornou-se vitória
E perder tornou-se nova vitória
A ser comemorada com champanhe e uvas frescas
E a vida é vendida a fiado
Envolta em leves trapos de trouxas velhas
Para pessoas passadas
De almas coalhadas batendo palmas
So risos histéricos e forçados com unhas afiadas
Dadas as mãos com minhas mãos de retalhos
Costuradas de promessas esgotadas
Correr como sangue será escorrer de mentiras
Escondendo verdades tardias através da falácias
O olhar dos belos quadros experessando uma vida vazia
Tornou-se a emoção que se tem nos catálogos
De verão a Setembro, flores de plástico em branco amarelado
Senhoras e senhores, sentados em berço louvável
A humanidade razoável
Nos trouxe até aqui


WallMushu

A teoria das cordas

As vezes pensamos coisas tão difíceis
De vidas tão impossíveis, que não nos damos conta
Talvez eu tenha sido meu maior erro passado
Minha urgêcia mais séria
Ou meu outro critério de ato


Ó donzela sem rosto, dos favos de neve
Dançando num tabuleiro de damas ou xadrêz
Ó criança velha, vestindo a boneca moleque
Cumprimentando as tias porcas, com rostos de sala

Menina menina andando de lado
Menina Maria Machado
Tudo pra ela é pela metade
O suor e o sagrado

Hoje não trago um presente
Porque hoje eu não sou gente
Acende outro cigarro
Orgulhoso em moda nova

O pobre coitado que vive em preto e branco
Minotauro bateu na porta errada 
Bendito seja o rosário
Dos que rezam por nada


O tesouro da Terra foi achado no céu
A fórmula da vida nascida
Criada e permitida, consentida
Nos vitrais da capelinha


Senhoras e senhores cutucando a ponta dos braços
Tentando lamber os cotovelos
Benditos cavalos correndo nos pastos
São minha alta pidade
De toda a sociedade


O mundo acabou pra quem quer gozar a vida
Nas lentes dos meus óculos de comércio
Tudo está em quarentena
É fácil, fácil demais


Pedro Paulo não tinha a palavra, não tinha a palavra
Parecia combinar dois mundos rivais
Nascidos como irmãos, criados como iguais
O braço levemente doendo, uma câimbra e nada mais


Pedro Paulo movia metais, achados no espaço
Como formas incomuns, saídas do nada
Se milagre real, catadas a esmo
Como cartas marcadas


Copos viciados e os jovens dispensados
Bebem até cair, enquanto a outra metade
Constrói um mundo melhor pra destruir
Com as próprias armas


Hoje eu vou me mexer bem devagar
Hoje eu vou contar mentiras, eu prometo
Vou acender um busca-pé com uma surpresa
Pra quem pular a fogueira


Pitonisa curiosa olhou o futuro de bobeira
Os arúspices me desejam, pra conhecer a vida inteira
Com um pouco de mágoa
Na salina da semana passada


Os amantes gêmeos
Dão um beijo de lua cheia
Açucarando o veneno
Do mundo sobre os trópicos

Assim eu era, eu era Harú
E minha loucura era dourada
Era enxaguada toda rua
Ensanguentada

Senhoras e senhores
Eu sou o prazer quase lírico
Dotado de um sapato sem cadarços
E só um inimigo

Senhora e senhores
Eu sou um sonho sem passado
Acordem acordem
Porque tudo já passou

WallMushu

Fenéstro

Eis que sois vintém
Deslizando nas águas da correnteza
Por onde passam os barcos
Bem cedo pela manhã
Caçando a luz do sol
Pelas margens e beiradas

Eis que sois ossos, carne e coração
Amanhecendo os pardais para o Outono
Em fitas de um colorido São João
Como prismas a refletir o arco-íris
E fractais espaçados entre as palavras
Que não ouso encarar

Cálices, cordas e grama
Violas flamencas e castanholas
Portas abertas e sóis que crescem
Quem me dera ser tão grande
Quanto García Lorca
Nos seus versos que emudecem

A prata, a ferrugem e a gente
Andando nas madrugadas
Para a época da colheita
Das maçãs do rosto
E da vergonha alheia
Onde vemos por um momento
Que o tempo está dando tempo
Ao amadurecer da mocidade de cores novas
Ainda não misturadas e sem tonalidade
Ainda não pintadas em tela branca

Nesta flor uma semente
Nesta semtne uma nascente
Uma criança, homem ou mulher
A abrir os olhos da terra, ouro e Alexandria
Rir como a muito a gente não ria
A graça do tempo dado
Ás mãos calejadas e aos olhos embaçados
Das ruas de mormaços e de sol
Que desta vez nasceu carrasco
Pingando ódio e injúria sobre as costas ardentes
Das pobres almas descontentes
Com o próprio salário

Quase não reconheço
Teu rosto de fogo das forjas
E metal malhado de guerra
Tuas barbas de luz aurea
Teus olhos de apocalípse
Tua voz que abala a terra
Teu coração pulsando o homem
Tua respiração inocente e magna

Que me escondes no mar?
A linha da minha vida
A carta do eremita, a roda da fortuna
A paz que em vão eu busco
O Deus que me perdoa
A mãe que não me esquece
O pai que não me nega
A mão que me bate o rosto
O inferno pra onde eu vou
O paraíso que me espera

Quem irá nascer?
Que então não serei pai
O que me fará mudo diamante 
Transparente, sem nada pra dizer
O que me fará estrela cadente
Desejando acordar

WallMushu

Dadas as mãos

O amor que trsnfigura as almas
Tem um nome que não sei
E se de outra forma for
De outra forma quererei


Voltarão outros verões
Quentes e com chuvas de prazer
Mas os verões que abraçaram a todos
Mesmo em garoas de lágrimas tenras
Estes não mais voltarão


Onde estão minhas mãos
Que não em meu coração
Escrevendo cartas velhas
Aos velhos amigos
Que não se vão
Estas tardes tão verdes
Deste novo ano
Voltarão mais vivas e verdes ano que vem
Mas o momento de estar convosco
E de partilhar da vida que tenho neste agora
Nunca mais verei voltar


Uma vez que iremos sem olhar para tráz
Do passado que deixamos
Sem nem pensar se erramos
No entanto tudo o que vivemos
Nada do que perdemos
Será tão importante, nem tão único
Do que aqueles de quem lembramos


Minhas palavras de orvalho
Pintadas no chão
Aos ecos dos ventos madrugueiros
Estas palavras serão e verão
Todo o mundo para mim
Madrinharão as crianças novas
Na alvorada nova, enquanto nasce o sol
De onde eu me deitar


WallMushu

segunda-feira, 5 de março de 2012

Confusão 

 Meu coração
é teu coração?
Quem me reflexa pensamentos?
Quem me presta
esta paixão
sem raízes?
Por que muda meu traje
de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?
Irmão, és tu
ou sou eu?
E estas mãos tão frias
são daquele?
Vejo-me pelos ocasos,
e um formigueiro de gente
anda por meu coração.

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes